quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O bebê de Xangai

Em 1937 os japoneses atacam a China, bombardeando a bela cidade de Xangai. Começava a segunda guerra sino-japonesa, na verdade um massacre causado pela diferença de poder entre ambas as Forças Armadas.



Durante o ataque o fotográfo H. S. Wong captura a imagem de um bebê ferido e sozinho, chorando em busca de ajuda nas proximidades da estação de trens da cidade. Conhecida como Bloody Saturday, a foto mostrou ao Ocidente as consequências desumanas das aspirações imperialistas do Japão.

É interessa notar - dito isso - que os ocidentais costumam ver a II Guerra Mundial como um conflito basicamente contra os Nazistas. Essa miopia pode ser explicada pela atuação do cinema. Afinal grande parte do contato das pessoas com o tema acontece por meio dos filmes e eles falam majoritariamente da guerra na Europa.

Por outro lado temos as bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, os dois horrendos ataques americanos que de alguma maneira tornaram os japoneses mais vítimas do que algozes do teatro formado durante a II Guerra Mundial.

De qualquer maneira, é fato que os líderes do Império Japonês não eram grandes protetores dos Direitos Humanos. E ao contrário do governo alemão, o governo japonês até hoje nega muitas das chacinas praticadas por seus exércitos. O Massacre de Nanquim - por exemplo - não é ensinado nas escolas do país.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O solo maldito do Pinheirinho

No início desse ano a polícia de São Paulo desocupou a favela do Pinheirinho. O processo foi traumático e não faltaram relatos de todo tipo de arbitrariedade contra os invasores - de tapas na cara até estupros.

O trágico é que a história de violência e injustiça daquele local específico não começa em 2012.

A invasão do Pinheirinho era antigamente uma chácara enorme, pertencente a quatro idosos conhecidos por seu estilo de vida avarento. A família de imigrantes alemães - os Kubitzky - ganhava uns trocados vendendo ovos e verduras na feira, mas também emprestavam dinheiro à juros.

Em 1969 a polícia chegou à propriedade deles e encontrou os quatro mortos a tiros.

Inicialmente não foi possível encontrar qualquer suspeito, mas dias depois uma mulher chamada Neide procurou a delegacia. Ela dizia que seu ex-amante Luis Carlos e alguns de seus colegas eram responsáveis pela chacina.

O corpo de um dos Kubitzky jaz nas proximidades da residência
Um dos conhecidos de Luis Carlos era um homem chamado Levi. Os dois não eram próximos, só conheciam algumas pessoas em comum. E foi durante uma festa que Luis Carlos notou o .38 de Levi.

Há tempos ele e dois comparsas pensavam em assaltar a família Kubitzki, uns gringos que - diziam as rádios das ruas - guardavam muito dinheiro dentro de sua propriedade. Seria grana fácil, mas Luis Carlos só tinha uma arma calibre .22 e precisava de mais uma para o trabalho.

Pediu emprestado o .38 de Levi, mas ele se negou. No dia seguinte, os três assaltantes pegaram a .22, colocaram no peito de Levi e levaram sua arma.

Nesse mesmo dia - durante a noite - invadiram a chácara dos Kubitzki. Estavam bêbados e logo perderam o controle da situação. Acabaram matando os quatro moradores da casa, um deles alvejado com a .22 e os outros três com o .38 de Levi.

E voltamos a abertura do texto, quando por causa de um briga com Neide, Luis Carlos é denunciado à polícia.

Com ele foi apreendida a arma de Levi. Já preso, ele contou em seu depoimento que ele e um dos comparsas tinham matado a família, não tendo o terceiro assaltante matado ninguém. Sobre a arma, descreveu que ela tinha sido roubada de Levi.

No entanto, esses fatos foram ignorados. Levi era conhecido das autoridades da área - enquadrado num determinado estereótipo - mas nunca cometera qualquer crime sério, apesar de suas amizades. Por algum motivo os policiais insistiram em incluir seu nome na lista de culpados, uma maneira de tirá-lo de circulação também. Luis Carlos foi torturado e obrigado a assinar um depoimento falso, no qual indicava a participação de Levi.

Apesar de mais tarde ainda ter negado a autenticidade de seu depoimento - na frente de advogados e um escrivão - a versão falsa de Luis Carlos seguiu como verdade.

Iniciou-se então uma caçada em busca de Levi. Denunciado pelo próprio pai, ele foi preso em poucos dias e "confessou". Estava armado o teatro para colocar todos na cadeia.

Levi foi condenado a 27 anos, mas não desistiu. Depois de 5 anos na cadeia, escreveu para um juiz e conseguiu alguém para investigar melhor os acontecimento de 1969.

E aí entra na história o advogado Carlos Vicente de Andrade. Revisando os arquivos do caso, ele descobriu que um dos policiais envolvidos na prisão de Levi estava na cadeia, preso por estupro. Antonio Pascal - o tira - soltou toda a história, revelando as torturas e injustiças do processo. Carlos também conseguiu uma carta de Luis Carlos, contando a verdadeira história do crime.

Munido desses argumentos, Carlos Vicente apresentou a nova defesa à Justiça. No entanto, depois de quase nove anos na cadeia, Levi fugiu e permaneceu foragido. Nesse meio tempo, enquanto ele permanecia escondido, o advogado preparava os papéis para a revisão do processo (nesse período que ele conta sua versão à Folha).

A trilha da história de Levi termina aí, sem informar se ele foi absolvido ou não.

No entanto, uma notícia de 1998 o cita novamente. Ela diz que alguns presos fugiram de uma penitenciária em São Paulo, mas logo foram recapturados, incluindo Levi Bernardes de Andrade - "condenado a 30 anos por matar uma família de alemães em 1969".

O terreno dos Kubitzky foi confiscado pelo governo, uma vez que eles não deixaram herdeiros. Mais tarde - não se sabe se por meios legais ou ilegais - a propriedade caiu nas mãos do empresário Naji Nahas e posteriormente acabou invadida pelas famílias do que mais tarde seria conhecida como favela do Pinheirinho.

Mais informações sobre o caso Kubitzky aqui.