No início desse ano a polícia de São Paulo desocupou a favela do Pinheirinho. O processo foi traumático e não faltaram relatos de todo tipo de arbitrariedade contra os invasores - de tapas na cara até estupros.
O trágico é que a história de violência e injustiça daquele local específico não começa em 2012.
A invasão do Pinheirinho era antigamente uma chácara enorme, pertencente a quatro idosos conhecidos por seu estilo de vida avarento. A família de imigrantes alemães - os Kubitzky - ganhava uns trocados vendendo ovos e verduras na feira, mas também emprestavam dinheiro à juros.
Em 1969 a polícia chegou à propriedade deles e encontrou os quatro mortos a tiros.
Inicialmente não foi possível encontrar qualquer suspeito, mas dias depois uma mulher chamada Neide procurou a delegacia. Ela dizia que seu ex-amante Luis Carlos e alguns de seus colegas eram responsáveis pela chacina.
Um dos conhecidos de Luis Carlos era um homem chamado Levi. Os dois não eram próximos, só conheciam algumas pessoas em comum. E foi durante uma festa que Luis Carlos notou o .38 de Levi.
Há tempos ele e dois comparsas pensavam em assaltar a família Kubitzki, uns gringos que - diziam as rádios das ruas - guardavam muito dinheiro dentro de sua propriedade. Seria grana fácil, mas Luis Carlos só tinha uma arma calibre .22 e precisava de mais uma para o trabalho.
Pediu emprestado o .38 de Levi, mas ele se negou. No dia seguinte, os três assaltantes pegaram a .22, colocaram no peito de Levi e levaram sua arma.
Nesse mesmo dia - durante a noite - invadiram a chácara dos Kubitzki. Estavam bêbados e logo perderam o controle da situação. Acabaram matando os quatro moradores da casa, um deles alvejado com a .22 e os outros três com o .38 de Levi.
E voltamos a abertura do texto, quando por causa de um briga com Neide, Luis Carlos é denunciado à polícia.
Com ele foi apreendida a arma de Levi. Já preso, ele contou em seu depoimento que ele e um dos comparsas tinham matado a família, não tendo o terceiro assaltante matado ninguém. Sobre a arma, descreveu que ela tinha sido roubada de Levi.
No entanto, esses fatos foram ignorados. Levi era conhecido das autoridades da área - enquadrado num determinado estereótipo - mas nunca cometera qualquer crime sério, apesar de suas amizades. Por algum motivo os policiais insistiram em incluir seu nome na lista de culpados, uma maneira de tirá-lo de circulação também. Luis Carlos foi torturado e obrigado a assinar um depoimento falso, no qual indicava a participação de Levi.
Apesar de mais tarde ainda ter negado a autenticidade de seu depoimento - na frente de advogados e um escrivão - a versão falsa de Luis Carlos seguiu como verdade.
Iniciou-se então uma caçada em busca de Levi. Denunciado pelo próprio pai, ele foi preso em poucos dias e "confessou". Estava armado o teatro para colocar todos na cadeia.
Levi foi condenado a 27 anos, mas não desistiu. Depois de 5 anos na cadeia, escreveu para um juiz e conseguiu alguém para investigar melhor os acontecimento de 1969.
E aí entra na história o advogado Carlos Vicente de Andrade. Revisando os arquivos do caso, ele descobriu que um dos policiais envolvidos na prisão de Levi estava na cadeia, preso por estupro. Antonio Pascal - o tira - soltou toda a história, revelando as torturas e injustiças do processo. Carlos também conseguiu uma carta de Luis Carlos, contando a verdadeira história do crime.
Munido desses argumentos, Carlos Vicente apresentou a nova defesa à Justiça. No entanto, depois de quase nove anos na cadeia, Levi fugiu e permaneceu foragido. Nesse meio tempo, enquanto ele permanecia escondido, o advogado preparava os papéis para a revisão do processo (nesse período que ele conta sua versão à Folha).
A trilha da história de Levi termina aí, sem informar se ele foi absolvido ou não.
No entanto, uma notícia de 1998 o cita novamente. Ela diz que alguns presos fugiram de uma penitenciária em São Paulo, mas logo foram recapturados, incluindo Levi Bernardes de Andrade - "condenado a 30 anos por matar uma família de alemães em 1969".
O terreno dos Kubitzky foi confiscado pelo governo, uma vez que eles não deixaram herdeiros. Mais tarde - não se sabe se por meios legais ou ilegais - a propriedade caiu nas mãos do empresário Naji Nahas e posteriormente acabou invadida pelas famílias do que mais tarde seria conhecida como favela do Pinheirinho.
Mais informações sobre o caso Kubitzky aqui.
O trágico é que a história de violência e injustiça daquele local específico não começa em 2012.
A invasão do Pinheirinho era antigamente uma chácara enorme, pertencente a quatro idosos conhecidos por seu estilo de vida avarento. A família de imigrantes alemães - os Kubitzky - ganhava uns trocados vendendo ovos e verduras na feira, mas também emprestavam dinheiro à juros.
Em 1969 a polícia chegou à propriedade deles e encontrou os quatro mortos a tiros.
Inicialmente não foi possível encontrar qualquer suspeito, mas dias depois uma mulher chamada Neide procurou a delegacia. Ela dizia que seu ex-amante Luis Carlos e alguns de seus colegas eram responsáveis pela chacina.
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| O corpo de um dos Kubitzky jaz nas proximidades da residência |
Há tempos ele e dois comparsas pensavam em assaltar a família Kubitzki, uns gringos que - diziam as rádios das ruas - guardavam muito dinheiro dentro de sua propriedade. Seria grana fácil, mas Luis Carlos só tinha uma arma calibre .22 e precisava de mais uma para o trabalho.
Pediu emprestado o .38 de Levi, mas ele se negou. No dia seguinte, os três assaltantes pegaram a .22, colocaram no peito de Levi e levaram sua arma.
Nesse mesmo dia - durante a noite - invadiram a chácara dos Kubitzki. Estavam bêbados e logo perderam o controle da situação. Acabaram matando os quatro moradores da casa, um deles alvejado com a .22 e os outros três com o .38 de Levi.
E voltamos a abertura do texto, quando por causa de um briga com Neide, Luis Carlos é denunciado à polícia.
Com ele foi apreendida a arma de Levi. Já preso, ele contou em seu depoimento que ele e um dos comparsas tinham matado a família, não tendo o terceiro assaltante matado ninguém. Sobre a arma, descreveu que ela tinha sido roubada de Levi.
No entanto, esses fatos foram ignorados. Levi era conhecido das autoridades da área - enquadrado num determinado estereótipo - mas nunca cometera qualquer crime sério, apesar de suas amizades. Por algum motivo os policiais insistiram em incluir seu nome na lista de culpados, uma maneira de tirá-lo de circulação também. Luis Carlos foi torturado e obrigado a assinar um depoimento falso, no qual indicava a participação de Levi.
Apesar de mais tarde ainda ter negado a autenticidade de seu depoimento - na frente de advogados e um escrivão - a versão falsa de Luis Carlos seguiu como verdade.
Iniciou-se então uma caçada em busca de Levi. Denunciado pelo próprio pai, ele foi preso em poucos dias e "confessou". Estava armado o teatro para colocar todos na cadeia.
Levi foi condenado a 27 anos, mas não desistiu. Depois de 5 anos na cadeia, escreveu para um juiz e conseguiu alguém para investigar melhor os acontecimento de 1969.
E aí entra na história o advogado Carlos Vicente de Andrade. Revisando os arquivos do caso, ele descobriu que um dos policiais envolvidos na prisão de Levi estava na cadeia, preso por estupro. Antonio Pascal - o tira - soltou toda a história, revelando as torturas e injustiças do processo. Carlos também conseguiu uma carta de Luis Carlos, contando a verdadeira história do crime.
Munido desses argumentos, Carlos Vicente apresentou a nova defesa à Justiça. No entanto, depois de quase nove anos na cadeia, Levi fugiu e permaneceu foragido. Nesse meio tempo, enquanto ele permanecia escondido, o advogado preparava os papéis para a revisão do processo (nesse período que ele conta sua versão à Folha).
A trilha da história de Levi termina aí, sem informar se ele foi absolvido ou não.
No entanto, uma notícia de 1998 o cita novamente. Ela diz que alguns presos fugiram de uma penitenciária em São Paulo, mas logo foram recapturados, incluindo Levi Bernardes de Andrade - "condenado a 30 anos por matar uma família de alemães em 1969".
O terreno dos Kubitzky foi confiscado pelo governo, uma vez que eles não deixaram herdeiros. Mais tarde - não se sabe se por meios legais ou ilegais - a propriedade caiu nas mãos do empresário Naji Nahas e posteriormente acabou invadida pelas famílias do que mais tarde seria conhecida como favela do Pinheirinho.
Mais informações sobre o caso Kubitzky aqui.

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