terça-feira, 6 de março de 2012

Estamos ainda em 1964

O Índice de Desenvolvimento Humano foi criado para medir o grau de desenvolvimento dos países de acordo com três critérios básicos: qualidade da Saúde (expectativa de vida ao nascer), qualidade da Educação e renda per capita (distribuição da riqueza).

É um ótimo índice para medir o atraso de um país em relação ao outro. Mas que tal ver esse atraso em anos e não somente em número quebrados?

Para isso serve o Índice de Desenvolvimento Humano Temporal (IDHT). Esse índice usa os dados do próprio IDH para calcular quanto um determinado país está atrasado se comparado ao país mais desenvolvido do planeta.

É também um modo de saber quanto anos faltam para que determinada nação atinja o nível do país mais desenvolvido de todos.

Para entender melhor, vamos à prática.

Na última lista de IDH's divulgada pela ONU, a Noruega estava em primeiro lugar com um IDH de 0,938. Uma vez que eles tem a melhor Saúde, Educação e distribuição de renda, a Noruega é o país referência - ou seja - lá eles estão em 2012, o ano corrente.

Levando em consideração que o crescimento médio do IDH mundial é da ordem de 0,005 pontos por ano, podemos considerar que um país que está 0,005 pontos abaixo da Noruega está também um ano atrasado em relação a eles.

A Itália por exemplo tem um IDH de 0,854. Isso significa que eles tem 0,084 pontos a menos que a Noruega. Isso equivale a 17 anos de atraso em relação à ponta da tabela. Desse modo, o IDH Temporal da Itália é o ano de 1995.

E quanto atrasado está o Brasil? Pelos cálculos do IDHT estamos em 1964, coincidentemente o ano do Golpe que tanto nos atrasou. Então podemos esperar que em 48 anos viveremos numa sociedade desenvolvida como a da Noruega? Quem sabe.

De qualquer forma, para o Zimbabue a espera será bem maior.  Eles estão em último na lista com um atraso de 160 anos.

Veja aqui a tabela completa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Nada é mais perigoso que um idiota com iniciativa


Em 1938 o pânico tomou conta dos Estados Unidos por causa de um programa de rádio. A transmissão do genial Orson Welles falava que os marcianos estavam invadindo o país. Algumas pessoas se esconderam, outras entraram em desespero e - dizem - algumas até se mataram.

E assim são os idiotas, crêem em tudo que ouvem. O problema é que hoje o número de idiotas ouvindo é muito maior.

Começa com Gutemberg e sua prensa tipográfica. Ele inventa um modo de imprimir as palavras em larga escala e muda tudo. Se antes a oferta de documentos escritos (conhecimento) era restrita por causa de uma limitação técnica (cópia à mão), agora não é mais.

Mais livros, mais pessoas alfabetizadas consumindo ideias.

Isso tudo é muito positivo, mas algumas coisas começam a dar errado. A primeira delas é o surgimento do analfabeto funcional. Ora, se alguém aprendesse a ler na Idade Média certamente faria uso desse recurso. A questão é que a nossa contemporaidade criou o camarada que consegue juntar as letras, mas não consegue compreender o texto. Ele é o "idiota letrado".

Um bom exemplo de funcionamento do "idiota letrado" é o caso do Manifesto Comunista. Ele foi publicado em 1848 e quase setenta anos depois estava amplamente difundido na Rússia Czarista, um estado naquela época repleto de analfabetos, "idiotas letrados" e uma minoria realmente educada.

Lá as ideias de Marx foram aceitas ao pé da letra ou interpretadas de modo estranho, inclusive uma peculiar necessidade de obrigatoriamente realizar uma revolução destruindo o modelo capitalista instantaneamente. Ninguém pensou, só fizeram mesmo. E Cuba e China foram na mesma onda, ambos os países num contexto educacional muito similar.

Já nos países com melhor conjuntura educacional o socialismo foi recebido primeiramente com desconfiança. "Ok vamos ver o que essa cara está dizendo". Depois da análise, parte do modelo proposto por Marx foi mesclado ao modelo capitalista, formando uma terceira via. Quem fez isso? Os países nórdicos, atualmente aqueles que atingem os melhores índices de desenvolvimento humano e social.

É como se você pensasse em Russos Czaristas e Noruegueses ouvindo o programa de Orson Welles. Quem ia se desesperar mesmo antes de ver as naves descendo?

E se os problemas dos idiotas acessando ideias já eram grandes por causa dos livros de Gutemberg, imagine com a chegada do rádio (ai meu Deus, os marcianos!) e da televisão.

Guerra do Vietnã? A TV convence o público, depois desconvence. Guerra no Iraque? A TV fala sobre as armas de destruição em massa e depois não fala mais nada. Collor eleito presidente? Ah, a TV é demais não é?

Agora há a internet.

Ela infelizmente ampliou o alcance das ideias a todos os idiotas. E isso não só virou um caos ainda porque só 25% da população tem acesso à rede, a esmagadora maioria delas em países desenvolvidos. E quando chegarmos aos 100%?

Agora vislumbre as atuais redes sociais contendo 100% da população mundial. A maioria dessas pessoas está preparada intelectualmente para fazer bom uso de uma nova ideia? Eles farão um bom julgamento?

Entre aí no Facebook e veja se temos qualquer chance com aqueles milhares de textos rasos (muitas vezes aceitos como fato), imagens e videos imbecis.

Ah, e não me fale do FB e da Primavera Árabe.

Sim, era uma revolução necessária. Mas será algo duradouro? É difícil acreditar que todas aquelas populações acordaram de uma só vez para a ideia da democracia. Mais parece - por outro lado - uma boa ideia chegando a um contexto ainda despreparado, da mesma forma que os franceses estudados promoveram a revolução iluminista e depois os franceses "idiotas letrados" entregaram o poder a Napoleão.

E outra: enquanto a internet promove UMA revolução, um milhão de flashmobs estúpidos explodiram por aí nesse meio tempo, como se a imbecilidade tivesse passado o limite do aceitável. Uma amostra clara de como os "idiotas letrados" do nosso tempo se organizam mesmo é em torno da estupidez.

Um dia uma ideia idiota vai aparecer e se espalhar pela internet. O bizarro será quando sair do campo da abstração e tomar o mundo real, tal qual os idiotas que sentam suas bundas suadas em bancos sujos de metrô usando roupas de baixo com o intuito de adotarem uma iniciativa imbecil.

Será novamente como no dia em que as pessoas acreditaram que os marcianos estavam invadindo a Terra, mas dessa vez numa assustadora escala mundial.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A imagem da morte

A chocante foto de Enrique Metinides
O mexicano Enrique Metinides passou parte de sua vida de fotógrafo registrando imagens para jornais estilo "Notas Rojas", cada página um litro de sangue. Uma das suas imagens mais conhecidas é essa acima. Um mulher loira e bem arrumada tinha acabado de ser atropelada na Avenida Chapultepec, umas das mais movimentadas da Cidade do México. O detalhe do rapaz a um segundo de cobrir o corpo da mulher - uma demonstração final de cuidado - é angustiante.

A irônia da imagem de Weegee
Na mesma linha segue o fotógrafo norte-americano Weegee. No entanto, dele eu não escolhi uma imagem de violência (você encontra várias). Optei por essa, a expressão de algumas crianças vendo um homem assassinado nas ruas do Brooklyn.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Idade do Bronze

Eu estava no Museu Rodin e no centro de uma das salas vi essa escultura aqui:

A Idade do Bronze

Tinha um grupo em volta da estátua, acredito que fossem alunos de arte dos EUA. Me aproximei e pude escutar a explicação da professora sobre aquela obra específica de Auguste Rodin:

"Olhem essa pessoa, ela está em agonia. É como se em sua alma existisse algo incontrolável e proibido. Seu corpo masculino e seu pênis descoberto constratam com uma expressão corporal claramente feminina. É alguém que carrega um segredo e se desespera porque precisa contê-lo de qualquer maneira".

Não sei se a explicação da professora procede. 

No entanto, a história da obra em si é interessante. Rodin a chamou inicialmente de "O Conquistado" ou "O Vencido". O nome e a obra seriam uma homenagem de Rodin aos soldados que perderam a vida na guerra franco-prussiana.

Seu extremo realismo fez com que os críticos acusassem Rodin de usar um modelo vivo para criá-la - algo muito mal visto pelos artistas da época. O "molde" teria sido um jovem belga chamado Auguste Neyt, amigo do escultor.

Rodin negou esse fato e para provar que era só fofoca mandou tirar uma foto do Neyt na mesma posição da estátua, uma jogada para provar que as duas coisas eram bem diferentes:

Neyt nu em defesa do amigo

Ninguém quis ver as fotos. Rodin já estava condenado por críticos que não compreendiam a inovação que ele estava propondo.

Não sei se a versão da professora está certa. Não há provas de que Neyt foi amante de Rodin ou mesmo pistas sobre uma suposta homo ou bissexualidade do artista.

Porém, é inevitável notar que a atitude de Neyt em tirar uma foto nu para defender o amigo é no mínimo um ato de extrema lealdade. E no máximo outra coisa mais complexa.

Finalmente - e fecho aqui o angustiante exercício da especulação - Rodin não poderia entitular a obra de "A Angústia de um Homossexual no Século XIX". Para ser aceito era mais simples dizer que foi algo feito para homenagear soldados, mas de qualquer maneira a manobra não funcionou. Depois das críticas/escândalo a escultura foi rebatizada e passou a se chamar "A Idade do Bronze".

Um nome ambíguo para uma obra de arte ambígua.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O bebê de Xangai

Em 1937 os japoneses atacam a China, bombardeando a bela cidade de Xangai. Começava a segunda guerra sino-japonesa, na verdade um massacre causado pela diferença de poder entre ambas as Forças Armadas.



Durante o ataque o fotográfo H. S. Wong captura a imagem de um bebê ferido e sozinho, chorando em busca de ajuda nas proximidades da estação de trens da cidade. Conhecida como Bloody Saturday, a foto mostrou ao Ocidente as consequências desumanas das aspirações imperialistas do Japão.

É interessa notar - dito isso - que os ocidentais costumam ver a II Guerra Mundial como um conflito basicamente contra os Nazistas. Essa miopia pode ser explicada pela atuação do cinema. Afinal grande parte do contato das pessoas com o tema acontece por meio dos filmes e eles falam majoritariamente da guerra na Europa.

Por outro lado temos as bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, os dois horrendos ataques americanos que de alguma maneira tornaram os japoneses mais vítimas do que algozes do teatro formado durante a II Guerra Mundial.

De qualquer maneira, é fato que os líderes do Império Japonês não eram grandes protetores dos Direitos Humanos. E ao contrário do governo alemão, o governo japonês até hoje nega muitas das chacinas praticadas por seus exércitos. O Massacre de Nanquim - por exemplo - não é ensinado nas escolas do país.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O solo maldito do Pinheirinho

No início desse ano a polícia de São Paulo desocupou a favela do Pinheirinho. O processo foi traumático e não faltaram relatos de todo tipo de arbitrariedade contra os invasores - de tapas na cara até estupros.

O trágico é que a história de violência e injustiça daquele local específico não começa em 2012.

A invasão do Pinheirinho era antigamente uma chácara enorme, pertencente a quatro idosos conhecidos por seu estilo de vida avarento. A família de imigrantes alemães - os Kubitzky - ganhava uns trocados vendendo ovos e verduras na feira, mas também emprestavam dinheiro à juros.

Em 1969 a polícia chegou à propriedade deles e encontrou os quatro mortos a tiros.

Inicialmente não foi possível encontrar qualquer suspeito, mas dias depois uma mulher chamada Neide procurou a delegacia. Ela dizia que seu ex-amante Luis Carlos e alguns de seus colegas eram responsáveis pela chacina.

O corpo de um dos Kubitzky jaz nas proximidades da residência
Um dos conhecidos de Luis Carlos era um homem chamado Levi. Os dois não eram próximos, só conheciam algumas pessoas em comum. E foi durante uma festa que Luis Carlos notou o .38 de Levi.

Há tempos ele e dois comparsas pensavam em assaltar a família Kubitzki, uns gringos que - diziam as rádios das ruas - guardavam muito dinheiro dentro de sua propriedade. Seria grana fácil, mas Luis Carlos só tinha uma arma calibre .22 e precisava de mais uma para o trabalho.

Pediu emprestado o .38 de Levi, mas ele se negou. No dia seguinte, os três assaltantes pegaram a .22, colocaram no peito de Levi e levaram sua arma.

Nesse mesmo dia - durante a noite - invadiram a chácara dos Kubitzki. Estavam bêbados e logo perderam o controle da situação. Acabaram matando os quatro moradores da casa, um deles alvejado com a .22 e os outros três com o .38 de Levi.

E voltamos a abertura do texto, quando por causa de um briga com Neide, Luis Carlos é denunciado à polícia.

Com ele foi apreendida a arma de Levi. Já preso, ele contou em seu depoimento que ele e um dos comparsas tinham matado a família, não tendo o terceiro assaltante matado ninguém. Sobre a arma, descreveu que ela tinha sido roubada de Levi.

No entanto, esses fatos foram ignorados. Levi era conhecido das autoridades da área - enquadrado num determinado estereótipo - mas nunca cometera qualquer crime sério, apesar de suas amizades. Por algum motivo os policiais insistiram em incluir seu nome na lista de culpados, uma maneira de tirá-lo de circulação também. Luis Carlos foi torturado e obrigado a assinar um depoimento falso, no qual indicava a participação de Levi.

Apesar de mais tarde ainda ter negado a autenticidade de seu depoimento - na frente de advogados e um escrivão - a versão falsa de Luis Carlos seguiu como verdade.

Iniciou-se então uma caçada em busca de Levi. Denunciado pelo próprio pai, ele foi preso em poucos dias e "confessou". Estava armado o teatro para colocar todos na cadeia.

Levi foi condenado a 27 anos, mas não desistiu. Depois de 5 anos na cadeia, escreveu para um juiz e conseguiu alguém para investigar melhor os acontecimento de 1969.

E aí entra na história o advogado Carlos Vicente de Andrade. Revisando os arquivos do caso, ele descobriu que um dos policiais envolvidos na prisão de Levi estava na cadeia, preso por estupro. Antonio Pascal - o tira - soltou toda a história, revelando as torturas e injustiças do processo. Carlos também conseguiu uma carta de Luis Carlos, contando a verdadeira história do crime.

Munido desses argumentos, Carlos Vicente apresentou a nova defesa à Justiça. No entanto, depois de quase nove anos na cadeia, Levi fugiu e permaneceu foragido. Nesse meio tempo, enquanto ele permanecia escondido, o advogado preparava os papéis para a revisão do processo (nesse período que ele conta sua versão à Folha).

A trilha da história de Levi termina aí, sem informar se ele foi absolvido ou não.

No entanto, uma notícia de 1998 o cita novamente. Ela diz que alguns presos fugiram de uma penitenciária em São Paulo, mas logo foram recapturados, incluindo Levi Bernardes de Andrade - "condenado a 30 anos por matar uma família de alemães em 1969".

O terreno dos Kubitzky foi confiscado pelo governo, uma vez que eles não deixaram herdeiros. Mais tarde - não se sabe se por meios legais ou ilegais - a propriedade caiu nas mãos do empresário Naji Nahas e posteriormente acabou invadida pelas famílias do que mais tarde seria conhecida como favela do Pinheirinho.

Mais informações sobre o caso Kubitzky aqui.