segunda-feira, 5 de março de 2012

Nada é mais perigoso que um idiota com iniciativa


Em 1938 o pânico tomou conta dos Estados Unidos por causa de um programa de rádio. A transmissão do genial Orson Welles falava que os marcianos estavam invadindo o país. Algumas pessoas se esconderam, outras entraram em desespero e - dizem - algumas até se mataram.

E assim são os idiotas, crêem em tudo que ouvem. O problema é que hoje o número de idiotas ouvindo é muito maior.

Começa com Gutemberg e sua prensa tipográfica. Ele inventa um modo de imprimir as palavras em larga escala e muda tudo. Se antes a oferta de documentos escritos (conhecimento) era restrita por causa de uma limitação técnica (cópia à mão), agora não é mais.

Mais livros, mais pessoas alfabetizadas consumindo ideias.

Isso tudo é muito positivo, mas algumas coisas começam a dar errado. A primeira delas é o surgimento do analfabeto funcional. Ora, se alguém aprendesse a ler na Idade Média certamente faria uso desse recurso. A questão é que a nossa contemporaidade criou o camarada que consegue juntar as letras, mas não consegue compreender o texto. Ele é o "idiota letrado".

Um bom exemplo de funcionamento do "idiota letrado" é o caso do Manifesto Comunista. Ele foi publicado em 1848 e quase setenta anos depois estava amplamente difundido na Rússia Czarista, um estado naquela época repleto de analfabetos, "idiotas letrados" e uma minoria realmente educada.

Lá as ideias de Marx foram aceitas ao pé da letra ou interpretadas de modo estranho, inclusive uma peculiar necessidade de obrigatoriamente realizar uma revolução destruindo o modelo capitalista instantaneamente. Ninguém pensou, só fizeram mesmo. E Cuba e China foram na mesma onda, ambos os países num contexto educacional muito similar.

Já nos países com melhor conjuntura educacional o socialismo foi recebido primeiramente com desconfiança. "Ok vamos ver o que essa cara está dizendo". Depois da análise, parte do modelo proposto por Marx foi mesclado ao modelo capitalista, formando uma terceira via. Quem fez isso? Os países nórdicos, atualmente aqueles que atingem os melhores índices de desenvolvimento humano e social.

É como se você pensasse em Russos Czaristas e Noruegueses ouvindo o programa de Orson Welles. Quem ia se desesperar mesmo antes de ver as naves descendo?

E se os problemas dos idiotas acessando ideias já eram grandes por causa dos livros de Gutemberg, imagine com a chegada do rádio (ai meu Deus, os marcianos!) e da televisão.

Guerra do Vietnã? A TV convence o público, depois desconvence. Guerra no Iraque? A TV fala sobre as armas de destruição em massa e depois não fala mais nada. Collor eleito presidente? Ah, a TV é demais não é?

Agora há a internet.

Ela infelizmente ampliou o alcance das ideias a todos os idiotas. E isso não só virou um caos ainda porque só 25% da população tem acesso à rede, a esmagadora maioria delas em países desenvolvidos. E quando chegarmos aos 100%?

Agora vislumbre as atuais redes sociais contendo 100% da população mundial. A maioria dessas pessoas está preparada intelectualmente para fazer bom uso de uma nova ideia? Eles farão um bom julgamento?

Entre aí no Facebook e veja se temos qualquer chance com aqueles milhares de textos rasos (muitas vezes aceitos como fato), imagens e videos imbecis.

Ah, e não me fale do FB e da Primavera Árabe.

Sim, era uma revolução necessária. Mas será algo duradouro? É difícil acreditar que todas aquelas populações acordaram de uma só vez para a ideia da democracia. Mais parece - por outro lado - uma boa ideia chegando a um contexto ainda despreparado, da mesma forma que os franceses estudados promoveram a revolução iluminista e depois os franceses "idiotas letrados" entregaram o poder a Napoleão.

E outra: enquanto a internet promove UMA revolução, um milhão de flashmobs estúpidos explodiram por aí nesse meio tempo, como se a imbecilidade tivesse passado o limite do aceitável. Uma amostra clara de como os "idiotas letrados" do nosso tempo se organizam mesmo é em torno da estupidez.

Um dia uma ideia idiota vai aparecer e se espalhar pela internet. O bizarro será quando sair do campo da abstração e tomar o mundo real, tal qual os idiotas que sentam suas bundas suadas em bancos sujos de metrô usando roupas de baixo com o intuito de adotarem uma iniciativa imbecil.

Será novamente como no dia em que as pessoas acreditaram que os marcianos estavam invadindo a Terra, mas dessa vez numa assustadora escala mundial.

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